quinta-feira, fevereiro 03, 2005

O pintor


Elizabeth Vigée Le Brun, Self portrait in a Straw Hat, depois de 1782 (detalhe)

Este pintor era um dos seus antigos colegas, um artista que guardara desde os seus verdes anos a paixão pela arte, que mergulhara nela com toda a sua alma ardente de trabalhador, que se afastara dos amigos e da família, que abandonara os queridos hábitos e correra para as terras onde, sob os céus divinos, amadurecem os majestosos viveiros das artes - para aquela Roma divina de que basta apenas dizer o nome para que pulse forte e plenamente o coração do artista. Lá, como um eremita, embrenhou-se no trabalho e nos estudos, sem se deixar distrair com nada. Tanto se lhe dava que os outros cochichassem sobre o seu carácter, sobre a sua incapacidade de lidar com o próximo, sobre a violação das regras da boa educação mundana, sobre a humilhação que a sua roupa pobre e deselegante causava ao título de artista. Não lhe importava que os seus irmãos artistas estivessem ou não zangados com ele. Desprezava tudo, entregava-se todo à arte. Visitava incansavelmente as galerias, ficava horas absorto diante das obras dos grandes mestres, na busca, na perseguição do pincel milagroso. Não dava por terminada nenhuma obra sem a confrontar com as obras desses grandes mestres e sem ler nas criações deles um conselho silencioso. Não entrava em conversas nem disputas barulhentas, não se pronunciava a favor nem contra os puristas. Fazia jus a tudo em pé de igualdade, extraindo de tudo apenas o que houvesse de belo. Por fim, decidiu escolher como seu mestre o divino Rafael. À semelhança do grande poeta que, tendo lido numerosas e variadas obras, cheias de muitos encantos e belezas majestosas, escolheu finalmente para si, como livro de cabeceira, apenas a Ilíada de Homero, porque viu que este livro continha todo o necessário e que não existia nada que o livro não reflectisse em grande e profunda perfeição. Portanto, a ideia majestosa da criação, a beleza poderosa do pensamento, o sublime encanto do pincel divino recebeu-os o pintor da escola de Rafael.

Nikolai Gógol in O Retrato, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, pp. 55 e 56

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