domingo, outubro 23, 2005


Luísa R., S/ título, 2005


Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Chico Buarque, 1971

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sexta-feira, outubro 14, 2005


George Segal, The Tightrope Walker, 1969

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segunda-feira, outubro 10, 2005

letras #1



«O Infinito

Sempre gratas me foram esta colina tão só
E esta sebe alta e extensa
Que não deixa ver o último horizonte.
Mas quando me demoro a contemplá-la
O meu espírito gera para além dela
Intermináves espaços, silêncios sobre-humanos
Uma paz escura, profunda; e pouco falta
Para o terror me assaltar o coração. E quando
Ouço o vento sussurrar nas plantas
Comparo o infinito de tanto silêncio
A esta voz, e lembro-me da eternidade
Das estações mortas, do tempo presente
E, vivo, do seu murmúrio brando. Assim
Se aniquila o meu espírito na imensidão:
E é-me grato naufragar neste mar.»

Itália
Giacomo Leopardi (1798-1837)
Trad.: Ernesto Sampaio

in Rosa do Mundo. 2001 poemas para o futuro, 3ª ed., Assírio & Alvim, 2001.

(fotog. Luísa R.)

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domingo, outubro 09, 2005


William Kentridge, Viagem à Lua, 2003, Video still. Gallery, New York/Paris

no Museu do Chiado
William Kentridge, Viagem à Lua, Sete Fragmentos para Georges Méliès e O Dia Pela Noite, de 7 de Outubro a 31 de Dezembro de 2005.
Festival Europeu Temps D'Images.

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Festival Temps D'Images 2005 - Lisboa, até 16 de Outubro

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Dominique Houcmant, Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle, s.d.

Merci, Dominique

Ver blogs:
Clik&Clak
From Belgium with love

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quinta-feira, outubro 06, 2005


Fotog. Luísa R., 2005

«(...) melancolia de um bater de asas, sob os ramos da árvore, quando o céu de chuva impede o voo para cima dos seus ramos. (...)»

Nuno Júdice in O Estado dos Campos, Dom Quixote, 2003

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domingo, outubro 02, 2005


Fotog. Luísa R., 2005

«(...) Estamos já tão longe da cidade que aqueles que partem, carregados de memórias, já quase esqueceram Roma quando aqui chegam. De facto, a memória dos homens é semelhante àqueles viajantes fatigados que se desembaraçam de alguma bagagem inútil em cada paragem. Assim chegarão de mãos vazias e nus ao lugar onde vão dormir e serão, no dia do grande despertar, como crianças que nada sabem de ontem. (...)»

Marguerite Yourcenar in O Tempo esse grande escultor, Difel, 1984, p. 17

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sábado, setembro 03, 2005

A ver: exposição Entre Linhas. Desenho na Colecção da Fundação Luso-Americana na Culturgest até 25 de Setembro.

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Rui Patacho, S/ título, 2004

imagem retirada do catálogo da exposição Entre Linhas. Desenho na Colecção da Fundação Luso-Americana editado pela Culturgest em 2005

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João Queiroz, S/ título (da série O Ecrã no peito), 1999



João Queiroz, S/ título (da série O Ecrã no peito), 1999



João Queiroz, S/ título (da série O Ecrã no peito), 1999


imagens retiradas do catálogo da exposição Entre Linhas. Desenho na Colecção da Fundação Luso-Americana editado pela Culturgest em 2005

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segunda-feira, agosto 15, 2005

Ghostly hands. Touch of the Past #2


Gua Tewet, 1999. Kalimantan. Indonesia.
Photos Luc-Henri Fage © Kalimanthrope



Gua Tewet, 1999. Kalimantan. Indonesia.
Photos Luc-Henri Fage © Kalimanthrope



Gua Tewet, 1999. Kalimantan. Indonesia.
Photos Luc-Henri Fage © Kalimanthrope


Ver Le Kalimanthrope

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domingo, agosto 14, 2005

Ghostly hands. Touch of the Past #1

«Ghostly hands—many decorated with dots, dashes, and other patterns—reach out from the wall of Gua Tewet in the rain forest of eastern Borneo. Dated back to more than 10,000 years ago, the stenciled hands may suggest initiation or shamanistic rituals, perhaps related to prehistoric Aboriginal art in Australia. The French-Indonesian expedition team called hands connected by long curving lines, at right, a "tree of life." The design may symbolize ties that connect individuals, families, territories, or spirits to each other.»

Ver National Geographic

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«It is a widely accepted notion among painters that it does not matter what one paints as long as it is well painted. This is the essence of academicism.
There is no such thing as good painting about nothing.»

Mark Rothko




Mark Rothko, Untitled (Orange over White), s.d.

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